terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Pura Poesia VI Vinicius de Moraes: O Que É Que Tem Sentido Nesta Vida



Vinicius de Moraes
O Que É Que Tem Sentido Nesta Vida




O que é que tem sentido nesta vida
Não vai ser casa e comida
Cama fofa, cobertor
Não vai ser ficar mirando os astros
Ou então andar de rastros
Pelas sendas do senhor

Para muitos é o dinheiro
Ir de janeiro a janeiro
De pé no acelerador
Eu sinceramente, preferia
Uma vida de poesia
Na vigília de um amor

Há quem creia em ter status
Sair em fotos & fatos
Ter ações ao portador
Eu só acredito em liberdade
E estar sempre com saudade
De viver um grande amor



Feitiço Bom


Bom Ano Novo


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Quarta-Feira


A Prática do Amor





"Se existe Amor, há também esperança de existirem verdadeiras famílias, verdadeira fraternidade, verdadeira igualdade e verdadeira paz. Se não existe amor dentro de si, se continua a ver os outros como inimigos, não importa o conhecimento ou o nível de instrução que tenha, não importa o progresso material que alcance, só haverá sofrimento e confusão no cômputo final. O homem vai continuar a subjugar e a enganar os outros homens, mas insultar ou maltratar os outros é algo sem sentido. O fundamento de toda a prática espiritual é o amor. O meu único pedido é que pratique bem o Amor."
 Dalai Lama 


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Poesia V

Arthur Hacker, The Cloud, 1902.

Desejo

Adormeço tropeçando
no desejo
encostada ao teu pescoço

Respirando o teu dormir
vou bebendo devagar
o ácido cheiro do teu corpo

Maria Teresa Horta, As Palavras do Corpo, Antologia de Poesia Erótica, Dom Quixote, Lisboa 2012.

Verdadeira Alegria


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Pura Poesia V Vinicius de Moraes e o Amor I

Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante

E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde

É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude

Fonte: You Tube

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Um Novo Dia


Natália Correia: Poema para Ana


Poema para Ana

Às vezes eu sei que não há Deus
Outras, reparo nos teus olhos, Ana.
São realmente olhos? São realmente teus?
São mistério de outra raça mais humana?

Serão assim os mortos que aparecem
E nos afagam com mãos de seda preta?
Os teus olhos, Ana, são coisas que acontecem
A quem esteve fechada séculos numa gaveta.

Se não tivesse vindo o Príncipe estrangeiro
Enchendo a nossa casa de ramos de giesta
Estariam ainda dragões de nevoeiro
A guardar os teus olhos perdidos na floresta.

Nunca mais haveria crianças de mãos dadas
No modo singular como agora te sentas
E estaríamos ainda as duas separadas
Pela cortina velha de andorinhas cinzentas.

O mundo não seria uma coisa tão grande
A noite voltaria a tirar-nos a calma.
Ah, foi o telescópio do Príncipe Alexandre
Que me salvou a alma.


Natália Correia, Poesia Completa, "Poema para Ana", Dom Quixote, Lisboa, 2007.


Victor Nizovtsev

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Acredita Na Tua Luz Interior


Pura Poesia IV Adriana Calcanhoto: A Fábrica do Poema

Fonte: You Tube



Sonho o poema de arquitetura ideal

Cuja própria nata de cimento

Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair

Faíscas das britas e leite das pedras.

Acordo;

E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.

Acordo;

O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:

Sob que máscara retornará o recalcado?

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Poesia IV- Natália Correia


Os Arquétipos da Deusa em Cada Mulher

Edouard Bisson, Goddesses on Mount Olympus.

"Cada mulher desempenha o papel principal no desabrochar da sua própria vida. (...) Tal como as mulheres não estavam usualmente conscientes dos poderosos efeitos que os estereótipos culturais tinham sobre elas, também podem não estar conscientes das poderosas forças dentro de si que influenciam o que fazem e como se sentem. Esses poderosos padrões íntimos, ou arquétipos, são responsáveis por diferenças fundamentais entre mulheres. (...) Logo que uma mulher se aperceba das forças que a influenciam, conquista o poder proporcionado pelo conhecimento. As "deusas" são forças poderosas e invencíveis que moldam o comportamento e influenciam as emoções. O conhecimento acerca das "deusas" existentes nas mulheres é um novo campo de aprofundamento da consciência feminina. Quando uma mulher sabe que "deusas" são forças dominantes dentro de si, adquire um auto-conhecimento sobre o poder de determinados instintos, sobre as prioridades e as aptidões, sobre as possibilidades de descobrir um significado pessoal por intermédio de escolhas que outras pessoas podem não estimular."

Jean Shinoda Bolen, As Deusas em Cada Mulher, Planeta Editora, Lisboa, 1998. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Silêncio


Bom Dia


A Vida Eterna

"A voz dela zurziu o ar como o sibilo das serpentes da deusa Némesis, e acusou o velho conde de assassínio frio e premeditado, pior, de vampirismo da mais negra espécie, pois não tinha escrúpulos de tentar conseguir a vida carnal eterna à custa de sorver as vidas dos que executassem a música maldita e que seriam transferidas para ele... Concluiu perguntando quantas vidas estaria ele disposto a sacrificar antes que alcançasse a imortalidade...e que imortalidade?" 

António de Macedo, A Sonata de Cristal, Editorial Caminho, Lisboa, 1996.


Dante Gabriel Rossetti, A Sea Spell, 1877.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Poesia III- Herberto Helder

Lugar

"O pão de aveia, as maças no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres do campo, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.
Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.
(...)"

Herberto Helder, Oficio Cantante - Poesia Completa, Assírio e Alvim, Lisboa, 2009.

Charles C.Curren, 1861-1942.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Eu Encontro o Divino No Meu Coração


Repressão Social da Mulher

"Bem sei que a revolta da mulher é a que leva à convulsão em todos os estractos sociais; nada fica de pé, nem relações de classe, nem de grupo, nem individuais, toda a repressão terá de ser desenraizada, e a primeira repressão, aquela em que veio assentar toda a história do género humano, criando o modelo e os mitos de outras repressões, é a do homem contra a mulher. Nenhum equilíbrio anterior nos será possível, portanto, a partir daí, nem sequer o de manipularmos nossos filhos. Tudo terá de ser novo, e todos temos medo. E o problema da mulher, no meio disto tudo, não é o de perder ou ganhar, é o da sua identidade. Que nesta sociedade, muitas coisas lhe são gratificantes, sem dúvida; mas que a mulher (e o homem) não tem consciência de como é manipulada e condicionada, ainda oferece menor dúvida. A repressão perfeita é a que não é sentida por quem sofre, a que é assumida, ao longo duma sábia educação, por tal forma que os mecanismos da repressão passam a estar no próprio individuo, e que este retira daí as suas próprias satisfações. E se acaso a mulher percebe a sua servidão, e a rejeita, como, a quem, identifica-se?"

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 2010.

Evelyn de Morgan, The Love Potion, 1903.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Vida Extraordinária

A Verdadeira Face Por Detrás da Máscara

Dante Gabriel Rossetti, Lady Lilith, 1864-68.

A Arte de Viver

"A única maneira de estar na vida é apreciá-la. Saber que nos vamos apagar como uma vela obriga-nos a tomar partido e a arranjar maneira de vivermos sensatamente, verdadeiramente e sempre com o sentimento dos nossos limites. Isso dá-nos a paz de espírito para aceitar o pior. Daí uma libertação de energia. Uma vez que temos um tempo limitado para viver nesta terra, é preciso viver tão feliz quanto possamos nas circunstâncias dadas".

Dominique Loreau, A Arte da Simplicidade, Bizâncio, Lisboa, 2006.

Gustave Moreau, Hésiode et la Muse, 1891.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Pequenos Prazeres

"Na sonolência das tardes ou respirando a brisa salgada da noite, deitada numa chaise-longue com velhas revistas sem capa e páginas dobradas que folheava maquinalmente, Isabel reencontrava algumas sensações, algumas recordações e pensamentos recorrentes que se fundiam, dilatavam ou fermentavam novas esperanças, onde se desenhavam imagens tórridas em que o desgosto do passado cedia lugar a ternas revelações prenunciando os limites do futuro.
Foi com um incrível atraso que Isabel descobriu o prazer  solitário. Num dado momento, a sua sensualidade - sã, equilibrada, purificada por uma camaradagem desportiva com a juventude queimada ao sol - arrefecera e petrificara-se para depois renascer com os meses de Verão, reanimada por novas tentações e o vício da adolescência".

Mircea Eliade, Isabel e as Águas do Diabo, Livros do Brasil, Lisboa, 2000.

Frederic Lord Leighton, Flaming June, 1895.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Poder da Imaginação


"Se quiser filhos mais inteligentes, leia-lhes contos de fadas." Einstein

Aquilo Por Que Vale a Pena Lutar


Poesia II- Manuel Alegre

A Perigosa Mão de Deus

Deus é maneta
diz Saramago
só tem a mão direita
à direita da qual todos se sentam.

Eu canto a outra mão de Deus
a que traz o Diabo pela trela
a que por vezes puxa para o outro lado
e escreve sempre por linhas tortas
a mão esquerda de Deus
a mão de sombra a mão do medo
a mão do nada
a mais perigosa mão de Deus
aquela que de repente solta o espírito
o enxofre a guerra o vento mau.
É a mão esquerda de Deus que aperta o coração
acelera o pulso
desarticula o ritmo.
Os poetas estão sentados à esquerda da mão esquerda
de Deus
até mesmo Antero.
É com ela que Deus abana o Mundo
com sua chuva e com seu fogo
sua onda gigante e seu terrível
terramoto.
Não é verdade que Deus seja maneta
Deus é canhoto.

Manuel Alegre, Livro do Português Errante, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 2001.

Idunn- Deusa da Poesia