terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O Bom Caminho


Poesia IX - Natália Correia


Os Fantasmas

"A viagem durava há algumas horas. Kate sentira a falta da beleza fantasmagórica dos campos ingleses.
Ele não falava muito, mas de vez em quando voltava-se e fazia-lhe uma caricia no cabelo, no joelho. Depois fixava os olhos na estrada, com um sorriso nos lábios.
Naquele dia, ele tinha um aspecto muito diferente. Cortara o cabelo, o corte de antigamente, que a fazia pensar em Marlon Brando como Marco António. O cabelo parecia menos grisalho. A barba desaparecera. Tinha um aspecto muitíssimo mais jovem. Era como se tivesse deixado para trás, em todos os sentidos, a sua personagem. O homem que esperava perto da janela, olhando a neve lá fora. O castelo na Escócia onde três pessoas que não estavam juntas há muito tempo se encontravam de novo.
- Às vezes pergunto a mim mesma...
- O quê?
- O que acontece às personagens.
- Quando o actor as deixa para trás?
- Sim.
Ele ficou pensativo."

Ana Teresa Pereira, A Pantera, Relógio D'água, Lisboa, 2011.

Salvador Dali, The Signal of Anguish, 1934.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Poesia VIII- Vanessa da Mata



Ainda Bem


Ainda bem
Que você vive comigo
Porque senão
Como seria esta vida?
Sei lá, sei lá
Nos dias frios em que nós estamos juntos
Nos abraçamos sob o nosso conforto
De amar, de amar

Se há dores tudo fica mais fácil
Seu rosto silencia e faz parar
As flores que me mandam são fato
Do nosso cuidado e entrega
Meus beijos sem os seus não dariam
Os dias chegariam sem paixão
Meu corpo sem o seu uma parte
Seria o acaso e não sorte

Ainda bem
Que você vive comigo
Porque senão
Como seria esta vida?
Sei lá, sei lá
Se há dores tudo fica mais fácil
Seu rosto silencia e faz parar
As flores que me mandam são fato
Do nosso cuidado e entrega
Meus beijos sem os seus não dariam
Os dias chegariam sem paixão
Meu corpo sem o seu uma parte
Seria o acaso e não sorte

Neste mundo de tantos anos
Entre tantos outros
Que sorte a nossa, hein?
Entre tantas paixões
Esse encontro
Nós dois
Esse amor

Entre tantos outros
Entre tantos anos
Que sorte a nossa, hein?

Entre tantas paixões
Esse encontro
Nós dois
Esse amor


Afirmação Diária

sábado, 11 de janeiro de 2014

Poesia VI- David Mourão-Ferreira


O Mistério da Noite

Noite
Mais uma vez encontro a tua face
Ó minha noite que eu julguei perdida.

Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,

Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,

Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.

Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem,
Tristeza das cigarras a cantar.

Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética, Editorial Caminho, Lisboa, 2010.

Edward Robert Hughes, Night.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

As Perspectivas da Memória

"Nesta fase do processo admito que não se tratasse propriamente de apatia, os médicos é que poderão dizer. Que eu saiba, ele ao princípio sabia-se doente. Ou teria uma percepção limiar da impossibilidade de se conjugar com os outros, uma impossibilidade com a qual convivia numa aceitação natural. Recordo-me até de que ao observar uma coisa que lhe chamasse a atenção a punha instintivamente de parte porque tinha como certo que um segundo depois a iria esquecer.
Ouvir e perceber enquanto ouvia mas apagar prontamente, era o traçado em que ele se movia. Ouvir e apagar logo-logo. Apagar. E ver, ver também contava. Ver pessoas (figuras) através dum vidro mudo e perdê-las acto contínuo. Tudo sem angústia, como quem preenchesse o tempo numa serenidade terminal. Como quem, na desertificação que o invadia, fosse avançando para a morte cerebral num cenário de contornos indiferentes."
José Cardoso Pires, De Profundis, Valsa Lenta, Dom Quixote, Lisboa, 1997.

Evelyn Pickering de Morgan, Lux in Tenebris, 1895.

O Meu Lugar No Mundo