segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Pura Poesia XVI- Ary dos Santos





Café
Rua da Saudade
Ary dos Santos
Viviane
Susana Félix

Chegam uns meninos
De mota, com a china na bota
E o papá na algibeira
São pescada marmota
Que não vende na lota
Que apodrece no tempo
E não cheira
Porque o tempo
É a derrota

Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais
Tal como a fava rica
Sabem sempre de mais
Escrevem para os jornais
Com canetas molhadas
Na bica

E a inveja
É quanto fica

Como quem está num chá dançante
Dos velhos pedantes, que penicam uma intriga
Debicando pelinhos vários, dizem mal dos operários
Que são a espécie inimiga

Chegam depois de boas maneiras
Com anéis e pulseiras, de sapatos de salto
São as bichas matreiras, que só dizem asneiras
São rapazes pescados no alto

E o que resta
É pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos vão atrás de outros mundos
Que pagaram com sol e beleza

Mas o troco
É a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores deste mundo de gente
São os modernos trovadores que adormecem as dores
Numa bica bem quente

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores deste mundo de gente
São os modernos trovadores que adormecem as dores
Numa bica bem quente.