quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Alma É Corpo De Mulher III

"Gosto de ouvir as suas histórias, repetidas várias e várias vezes. Gosto de poder apoiar-me na segurança de saber o que vem a seguir; a morte da Mãe tornou a pôr-me assim, frágil e infantil.
Depois de fazermos amor, ele faz deslizar o braço sob a minha cabeça, e, pela primeira vez, falamos da mulher dele. - Durante muitos anos, ela foi a minha sombra, e eu fui a sombra dela - diz ele. - Talvez até fossemos chegados demais. A morte do nosso filho uniu-nos, mas isolou-nos. - Encolhe os ombros com tristeza. - Depois, um dia, acordei, e olhei à minha volta, e não havia nada. É uma coisa horrível, não projectar uma imagem nem para a frente nem para trás de ti. É como não nascer. Como viver como um dybbuk, um fantasma que assombra a Terra.
Sentir o que ele perdeu leva-me a abraça-lo com força, e ele não resiste. A sua generosa tolerância comigo é o motivo pelo qual o ciúme não nos envenena. Contudo, a nossa intimidade faz-me tremer ao fim de algum tempo; é a fragilidade de estar demasiado nua em frente de um amante."

Richard Zimler, A Sétima Porta, Editora Oceanos, Porto, 2007.


Amadeo Modigliani, Portrait of a Woman, 1917-1918.

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