Poema para Ana
Às vezes eu sei que não há Deus
Outras, reparo nos teus olhos, Ana. São realmente olhos? São realmente teus? São mistério de outra raça mais humana? Serão assim os mortos que aparecem E nos afagam com mãos de seda preta? Os teus olhos, Ana, são coisas que acontecem A quem esteve fechada séculos numa gaveta.Se não tivesse vindo o Príncipe estrangeiro
Enchendo a nossa casa de ramos de giesta Estariam ainda dragões de nevoeiro A guardar os teus olhos perdidos(...) Natália Correia
"Amália Ruiz encontrou a paixão da sua vida no corpo e na voz de um homem proibido. Durante mais de um ano viu-o chegar febril à beira da sua saia, que saía voando depois de um abraço. Não falavam muito, conheciam-se como se tivessem nascido no mesmo quarto, e um simples roçar dos seus agasalhos causava-lhes estremecimento e ditas. O resto saía-lhes dos seus corpos felizes com tanta facilidade que, pouco tempo depois de se encontrarem, no quarto dos seus amores soava a Sinfonia Pastoral e cheirava a perfume como se Coco Chanel o tivesse inventado.
Aquela glória mantinha as suas vidas suspensas e convertia a sua morte num impossível. por isso, eram belos como um feitiço e promissórios como uma fantasia.
Até que, numa noite de Outubro, o amante da tia Meli chegou ao encontro atrasado e a falar de negócios. Ela deixou-se beijar sem paixão e sentiu o hálito da habituação devastando-lhe a boca. Guardou para si as censuras, mas saiu a correr para casa e nunca mais quis saber daquele amor.
- Quando o impossível se quer transformar em rotina, é preciso abandoná-lo - explicou à irmã, que não era capaz de entender uma atitude tão radical. - Não podemos embarcar na história de ambicionar uma coisa proibida, de a possuir às vezes como uma bênção, de a desejar sobretudo por isso, por ser impossível, desesperada, e de um momento para o outro vê-la converter-se no anexo de um escritório. Não posso permiti-lo, não vou permiti-lo. Seja por amor de Deus que algo tem de proibido e por isso é abençoado."
Angeles Mastretta, Mulheres de Olhos Grandes, Edições Asa, Lisboa, 2003.
"Gosto de ouvir as suas histórias, repetidas várias e várias vezes. Gosto de poder apoiar-me na segurança de saber o que vem a seguir; a morte da Mãe tornou a pôr-me assim, frágil e infantil.
Depois de fazermos amor, ele faz deslizar o braço sob a minha cabeça, e, pela primeira vez, falamos da mulher dele. - Durante muitos anos, ela foi a minha sombra, e eu fui a sombra dela - diz ele. - Talvez até fossemos chegados demais. A morte do nosso filho uniu-nos, mas isolou-nos. - Encolhe os ombros com tristeza. - Depois, um dia, acordei, e olhei à minha volta, e não havia nada. É uma coisa horrível, não projectar uma imagem nem para a frente nem para trás de ti. É como não nascer. Como viver como um dybbuk, um fantasma que assombra a Terra.
Sentir o que ele perdeu leva-me a abraça-lo com força, e ele não resiste. A sua generosa tolerância comigo é o motivo pelo qual o ciúme não nos envenena. Contudo, a nossa intimidade faz-me tremer ao fim de algum tempo; é a fragilidade de estar demasiado nua em frente de um amante."
Richard Zimler, A Sétima Porta, Editora Oceanos, Porto, 2007.
Amadeo Modigliani, Portrait of a Woman, 1917-1918.