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terça-feira, 19 de abril de 2016

Pura Poesia XII- Jorge Palma




Bairro do Amor
Jorge Palma
  

No bairro do amor a vida é um carrossel 
Onde há sempre lugar para mais alguém 
O bairro do amor foi feito a lápis de cor 
Por gente que sofreu por não ter ninguém

No bairro do amor o tempo morre devagar 
Num cachimbo a rodar de mão em mão 
No bairro do amor há quem pergunte a sorrir: 
Será que ainda cá estamos no fim do verão?

Eh, pá, deixa-me abrir contigo 
Desabafar contigo 
Falar-te da minha solidão 
Ah, é bom sorrir um pouco 
Descontrair-me um pouco 
Eu sei que tu me compreendes bem.

No bairro do amor a vida corre sempre igual 
De café em café, de bar em bar 
No bairro do amor o sol parece maior 
E há ondas de ternura em cada olhar.

O bairro do amor é uma zona marginal 
Onde não há prisões nem hospitais 
No bairro do amor cada um tem de tratar 
Das suas nódoas negras sentimentais

Eh, pá, deixa-me abrir contigo 
Desabafar contigo 
Falar-te da minha solidão 
Ah, é bom sorrir um pouco 
Descontrair-me um pouco 
Eu sei que tu me compreendes bem.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Pura Poesia XI- Ary dos Santos




Canção de Madrugar
Rua da Saudade
Ary dos Santos     
Susana Félix

De linho te vesti
De nardos te enfeitei
Amor que nunca vi
Mas sei...

Sei dos teus olhos acesos na noite
Sinais de bem despertar
Sei dos teus braços abertos a todos
Que morrem devagar
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo pode acender
Uma fogueira de sol e de furia
Que nos verá nascer

Irei beber em ti
O vinho que pisei
O fel do que sofri
E dei... dei...

Dei do meu corpo o chicote de força
Razei meus olhos com água
Dei do meu sangue uma espada de raiva
E uma lança de magua
Dei do meu sonho uma corda de insonias
Cravei meus braços com setas
Descubri rosas alarguei cidades
E construi poetas

E nunca, nunca te encontrei
Na estrada do que fiz
Amor que não lucrei
Mas quis... quis...

Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo há-de acender
Uma fogueira de sol e de furia
Que nos verá nascer

Entao nem choros, nem medos, nem uivos, nem gritos, nem...
pedras, nem facas, nem fomes, nem secas, nem...
feras, nem ferros, nem farpas, nem farças, nem...
forcas, nem gardos, nem dardos, nem guerras, nem...
choros, nem medos, nem uivos, nem gritos, nem...
pedras, nem facas, nem fomes, nem secas, nem...
feras, nem ferros, nem farpas, nem farças, nem mal...


sábado, 12 de julho de 2014

A Alma É Corpo De Mulher IV- Angeles Mastretta

"Amália Ruiz encontrou a paixão da sua vida no corpo e na voz de um homem proibido. Durante mais de um ano viu-o chegar febril à beira da sua saia, que saía voando depois de um abraço. Não falavam muito, conheciam-se como se tivessem nascido no mesmo quarto, e um simples roçar dos seus agasalhos causava-lhes estremecimento e ditas. O resto saía-lhes dos seus corpos felizes com tanta facilidade que, pouco tempo depois de se encontrarem, no quarto dos seus amores soava a Sinfonia Pastoral e cheirava a perfume como se Coco Chanel o tivesse inventado.
Aquela glória mantinha as suas vidas suspensas e convertia a sua morte num impossível. por isso, eram belos como um feitiço e promissórios como uma fantasia.
Até que, numa noite de Outubro, o amante da tia Meli chegou ao encontro atrasado e a falar de negócios. Ela deixou-se beijar sem paixão e sentiu o hálito da habituação devastando-lhe a boca. Guardou para si as censuras, mas saiu a correr para casa e nunca mais quis saber daquele amor.
- Quando o impossível se quer transformar em rotina, é preciso abandoná-lo - explicou à irmã, que não era capaz de entender uma atitude tão radical. - Não podemos embarcar na história de ambicionar uma coisa proibida, de a possuir às vezes como uma bênção, de a desejar sobretudo por isso, por ser impossível, desesperada, e de um momento para o outro vê-la converter-se no anexo de um escritório. Não posso permiti-lo, não vou permiti-lo. Seja por amor de Deus que algo tem de proibido e por isso é abençoado."

Angeles Mastretta, Mulheres de Olhos Grandes, Edições Asa, Lisboa, 2003.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Alma É Corpo De Mulher III- Richard Zimler

"Gosto de ouvir as suas histórias, repetidas várias e várias vezes. Gosto de poder apoiar-me na segurança de saber o que vem a seguir; a morte da Mãe tornou a pôr-me assim, frágil e infantil.
Depois de fazermos amor, ele faz deslizar o braço sob a minha cabeça, e, pela primeira vez, falamos da mulher dele. - Durante muitos anos, ela foi a minha sombra, e eu fui a sombra dela - diz ele. - Talvez até fossemos chegados demais. A morte do nosso filho uniu-nos, mas isolou-nos. - Encolhe os ombros com tristeza. - Depois, um dia, acordei, e olhei à minha volta, e não havia nada. É uma coisa horrível, não projectar uma imagem nem para a frente nem para trás de ti. É como não nascer. Como viver como um dybbuk, um fantasma que assombra a Terra.
Sentir o que ele perdeu leva-me a abraça-lo com força, e ele não resiste. A sua generosa tolerância comigo é o motivo pelo qual o ciúme não nos envenena. Contudo, a nossa intimidade faz-me tremer ao fim de algum tempo; é a fragilidade de estar demasiado nua em frente de um amante."

Richard Zimler, A Sétima Porta, Editora Oceanos, Porto, 2007.


Amadeo Modigliani, Portrait of a Woman, 1917-1918.