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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Pura Poesia XVI- Ary dos Santos





Café
Rua da Saudade
Ary dos Santos
Viviane
Susana Félix

Chegam uns meninos
De mota, com a china na bota
E o papá na algibeira
São pescada marmota
Que não vende na lota
Que apodrece no tempo
E não cheira
Porque o tempo
É a derrota

Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais
Tal como a fava rica
Sabem sempre de mais
Escrevem para os jornais
Com canetas molhadas
Na bica

E a inveja
É quanto fica

Como quem está num chá dançante
Dos velhos pedantes, que penicam uma intriga
Debicando pelinhos vários, dizem mal dos operários
Que são a espécie inimiga

Chegam depois de boas maneiras
Com anéis e pulseiras, de sapatos de salto
São as bichas matreiras, que só dizem asneiras
São rapazes pescados no alto

E o que resta
É pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos vão atrás de outros mundos
Que pagaram com sol e beleza

Mas o troco
É a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores deste mundo de gente
São os modernos trovadores que adormecem as dores
Numa bica bem quente

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores deste mundo de gente
São os modernos trovadores que adormecem as dores
Numa bica bem quente.


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Pura Poesia XIV- Ary dos Santos

Rua da Saudade
Canção do Tempo

Ary dos Santos
Mafalda Arnauth e Luanda Cozetti


Para um tempo que fica
Doendo por dentro
E passa por fora
Para o tempo do vento
Que é o contratempo
Da nossa demora
Passam dias e noites
Os meses...os anos
O segundo e a hora
E ao tempo presente
É que a gente pergunta
E agora...e agora

Tempo
Para pensar cada momento deste tempo
Que cada dia é mais profundo e é mais tempo
Para emendar pois outro tempo menos lento
Tempo
Dos nossos filhos aprenderem com mais tempo
A rapidez que apanha sempre o pensamento
Para nascer, para viver, para existir
E nunca mais verem o tempo fugir

Ai...o tempo constante
Que a cada instante
Nos passa por fora
Este tempo candente
Que é como um cometa
Com laivos de aurora
É o tempo de hoje
É o tempo de ontem
É o tempo de outrora
Mas o tempo da gente
É o tempo presente
É agora...é agora

Tempo
Para agarrar cada momento deste tempo
E terminar em absoluto ao mesmo tempo
Em temporal como os ponteiros do minuto
Tempo
Para o relógio bater certo com a vida
Que um homem bom que um homem são que um homem forte
Que não chegava a conseguir fazer partida
E que desperta adiantado para a morte



segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Pura Poesia XIII- Ary dos Santos



Rua da Saudade

Estrela da Tarde
Ary dos Santos
Mafalda Arnauth


Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia. (Refrão)
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

(Refrão)

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!

segunda-feira, 28 de março de 2016

Pura Poesia XI- Ary dos Santos




Canção de Madrugar
Rua da Saudade
Ary dos Santos     
Susana Félix

De linho te vesti
De nardos te enfeitei
Amor que nunca vi
Mas sei...

Sei dos teus olhos acesos na noite
Sinais de bem despertar
Sei dos teus braços abertos a todos
Que morrem devagar
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo pode acender
Uma fogueira de sol e de furia
Que nos verá nascer

Irei beber em ti
O vinho que pisei
O fel do que sofri
E dei... dei...

Dei do meu corpo o chicote de força
Razei meus olhos com água
Dei do meu sangue uma espada de raiva
E uma lança de magua
Dei do meu sonho uma corda de insonias
Cravei meus braços com setas
Descubri rosas alarguei cidades
E construi poetas

E nunca, nunca te encontrei
Na estrada do que fiz
Amor que não lucrei
Mas quis... quis...

Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo há-de acender
Uma fogueira de sol e de furia
Que nos verá nascer

Entao nem choros, nem medos, nem uivos, nem gritos, nem...
pedras, nem facas, nem fomes, nem secas, nem...
feras, nem ferros, nem farpas, nem farças, nem...
forcas, nem gardos, nem dardos, nem guerras, nem...
choros, nem medos, nem uivos, nem gritos, nem...
pedras, nem facas, nem fomes, nem secas, nem...
feras, nem ferros, nem farpas, nem farças, nem mal...


domingo, 2 de março de 2014

Pura Poesia IX Memórias- Ary dos Santos


Retalhos Da Vida De Um Médico


Serras, veredas, atalhos,
Estradas e fragas de vento,
Onde se encontram retalhos
De vidas em sofrimento

Retalhos fundos nos rostos,
Mãos duras e retalhadas
Pelo suor do desgosto,
Retalha as caras fechadas

O caminho que seguiste,
Entre gente pobre e rude,
Muitas vezes tu abriste
Uma rosa de saúde

[refrão]
Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão

As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São lágrimas que tu bebeste
Dos olhos de um povo triste

E depois de tanto mundo,
Retalhado de verdade,
Também tu chegaste ao fundo
Da doença da cidade

Da que não vem na sebenta,
Daquela que não se ensina,
Da pobreza que afugenta
Os barões da medicina

Tu sabes quanto fizeste,
A miséria não segura,
Nem mesmo quando lhe deste
A receita da ternura