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segunda-feira, 28 de março de 2016

Pura Poesia XI- Ary dos Santos




Canção de Madrugar
Rua da Saudade
Ary dos Santos     
Susana Félix

De linho te vesti
De nardos te enfeitei
Amor que nunca vi
Mas sei...

Sei dos teus olhos acesos na noite
Sinais de bem despertar
Sei dos teus braços abertos a todos
Que morrem devagar
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo pode acender
Uma fogueira de sol e de furia
Que nos verá nascer

Irei beber em ti
O vinho que pisei
O fel do que sofri
E dei... dei...

Dei do meu corpo o chicote de força
Razei meus olhos com água
Dei do meu sangue uma espada de raiva
E uma lança de magua
Dei do meu sonho uma corda de insonias
Cravei meus braços com setas
Descubri rosas alarguei cidades
E construi poetas

E nunca, nunca te encontrei
Na estrada do que fiz
Amor que não lucrei
Mas quis... quis...

Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo há-de acender
Uma fogueira de sol e de furia
Que nos verá nascer

Entao nem choros, nem medos, nem uivos, nem gritos, nem...
pedras, nem facas, nem fomes, nem secas, nem...
feras, nem ferros, nem farpas, nem farças, nem...
forcas, nem gardos, nem dardos, nem guerras, nem...
choros, nem medos, nem uivos, nem gritos, nem...
pedras, nem facas, nem fomes, nem secas, nem...
feras, nem ferros, nem farpas, nem farças, nem mal...


quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Alma É Corpo De Mulher III- Richard Zimler

"Gosto de ouvir as suas histórias, repetidas várias e várias vezes. Gosto de poder apoiar-me na segurança de saber o que vem a seguir; a morte da Mãe tornou a pôr-me assim, frágil e infantil.
Depois de fazermos amor, ele faz deslizar o braço sob a minha cabeça, e, pela primeira vez, falamos da mulher dele. - Durante muitos anos, ela foi a minha sombra, e eu fui a sombra dela - diz ele. - Talvez até fossemos chegados demais. A morte do nosso filho uniu-nos, mas isolou-nos. - Encolhe os ombros com tristeza. - Depois, um dia, acordei, e olhei à minha volta, e não havia nada. É uma coisa horrível, não projectar uma imagem nem para a frente nem para trás de ti. É como não nascer. Como viver como um dybbuk, um fantasma que assombra a Terra.
Sentir o que ele perdeu leva-me a abraça-lo com força, e ele não resiste. A sua generosa tolerância comigo é o motivo pelo qual o ciúme não nos envenena. Contudo, a nossa intimidade faz-me tremer ao fim de algum tempo; é a fragilidade de estar demasiado nua em frente de um amante."

Richard Zimler, A Sétima Porta, Editora Oceanos, Porto, 2007.


Amadeo Modigliani, Portrait of a Woman, 1917-1918.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Natália Correia: Feiticeira

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltamos campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
                        deixa passar a Vida!



Natália Correia, Poesia Completa, "Ode à Paz", Pub. Dom Quixote, Lisboa, 2007.


Dante Gabriel Rossetti, Astarte Syriaca, 1877.