terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Os Fantasmas

"A viagem durava há algumas horas. Kate sentira a falta da beleza fantasmagórica dos campos ingleses.
Ele não falava muito, mas de vez em quando voltava-se e fazia-lhe uma caricia no cabelo, no joelho. Depois fixava os olhos na estrada, com um sorriso nos lábios.
Naquele dia, ele tinha um aspecto muito diferente. Cortara o cabelo, o corte de antigamente, que a fazia pensar em Marlon Brando como Marco António. O cabelo parecia menos grisalho. A barba desaparecera. Tinha um aspecto muitíssimo mais jovem. Era como se tivesse deixado para trás, em todos os sentidos, a sua personagem. O homem que esperava perto da janela, olhando a neve lá fora. O castelo na Escócia onde três pessoas que não estavam juntas há muito tempo se encontravam de novo.
- Às vezes pergunto a mim mesma...
- O quê?
- O que acontece às personagens.
- Quando o actor as deixa para trás?
- Sim.
Ele ficou pensativo."

Ana Teresa Pereira, A Pantera, Relógio D'água, Lisboa, 2011.

Salvador Dali, The Signal of Anguish, 1934.

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