quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Paixão

"De noite, uns enlouqueciam mais do que os outros.
Ou então, de súbito, um instinto de sobrevivência funcionava, uma chamada de vigilância, um toque na alma, durante as noites frias que sobrevieram depois da chuva, acontecia. Porque eles, os dois, emitiam sinais claros, perceptíveis. Maria Ema e Walter Dias rondavam a desoras, pela casa. Todos sabiam. Por volta da meia-noite, ela passava no corredor, de candeeiro na mão, para ir buscar água e ouvia-se o roçar morno das suas chinelas. Em baixo, Walter saía para a rua, abria a porta, ouvia-se o trinco da porta, depois a porta do carro, ouvia-se a batida metálica e abrupta do trinco do Chevrolet. E de novo, ele entrava em casa com os passos espumosos dos seus sapatos de borracha e pele de búfalo. Calculando as passadas de um e de outro, deveriam ver-se em roupão. Viam-se, por certo. Se não se viam, era como se vissem. Estavam cegos. Faiscava ali dentro um relâmpago sem luz."

Lídia Jorge, O Vale da Paixão, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1998. 

Joanna Sierko Filipowska

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